Euphorya

Meu dia foi azul – ela disse.

Agora que tudo já foi engolido, é difícil imaginar coisas vivas desse jeito. Eu percebia que estava mal por começar a escrever bem. Era como um presente. Menos que isso, bem menos, era como um chulo adicional de insalubridade por viver ali, no mundo. Vamos lá, durante essa semana a caneta lhe renderá palavras a mais, sintaxes perfeitas, metáforas brilhantes. Articular vocábulos fantasmagóricos, iludir mocinhas com sonetos refinados sobre a primavera e a bossa nova. Tudo por preço simples: sua vontade de acordar. Aqueles dias eram tão lentos e a época tornava-se tão eufórica. Pela manhã, já não sabia se o mau grado a responder o despertador era só uma indisposição do dia a dia ou realmente era preguiça de viver.

Era tanta coisa ao mesmo tempo. Acho que as pessoas não merecem isso. A cidade era como um órgão doente e inflamado. O país, um grande corpo moribundo. Camadas esverdeadas de pus entravam pela minha janela. O alastrim social adoecia as pessoas mesmo que protegidas dentro de suas casas. Os psicanalistas eram os novos padres. E os antigos padres inventaram a castração. Depois, inventaram a masturbação. E disseram que o mundo não seria o bastante pra gozar. Desenharam um buraco vazio no homem.

Meus rins já se tornavam motores velhos e meus pulmões já eram dois pedaços secos de carniça. O meu ópio legalizado. Qualquer pancada na cabeça valia. Fugir. Pra longe. Parar de tossir papéis com carimbos, protocolos de seções administrativas organizadas em estratificações robóticas. Usar escritos pra lubrificar o que sobrava das engrenagens. Como ser um bom cidadão preparado para o mercado de trabalho sem ser engolido pelos tentáculos do kraken que era o estado? Não, não queriam indivíduos, queriam talheres, ferramentas. E ferramentas não pensam. Noites sem eira nem beira que se misturavam ao cheiro angustiante de rivotril e licores de menta. A vida era um cigarro. E me tragava aos poucos. Como um pacto demoníaco. Um prazer aprendido de baforar almas incertas no ar, em troca de alguns anos a menos. Talvez muitos. Era justo.

Aonde chegamos que ganhar na loteria é um motivo de alegria, um ideal? Bancos diziam pelas ruas: “Realize agora seu sonho de ter um carro próprio com nossos planos!” O sonho humano foi resumido a isso. Ninguém queria carros, mas desejavam camaros e ferraris. Comer um cachorro quente no seu João certamente não era a mesma coisa de comer um Subway, dito saudável, com todos aqueles quadros bem nítidos de legumes e cookies espalhados pelas paredes bem limpas. Por que as atendentes tinham a expressão tão triste? Eu não quero Sky, amigo. Queria uma programação decente e não precisar pagar pra ver algum nível de cultura sair da merda da TV, que não fossem as mesmas marionetes rindo de piadas sem graça e bundas cheias de celulite iludindo algum torcedor de um time inútil, com uma cerveja na mão. Que importa o símbolo? Que importa se a esquerda ou a direita vão dirigir o país se ambos querem o lucro? Foices e martelos e tucanos e letras incontáveis eram a mesma sopa de bernes empapadas de suor humano. Comprar pão antes de ir pra casa. Que até a alma está à venda. As clínicas terapêuticas são a prova concreta de que a humanidade faliu. Nós falhamos. Nós desistimos.

Perdeu-se a capacidade de afetar e ser afetado. É tudo mercadoria. Quando jovem e leitor de Hugo, imaginava que o amor se cultivava. Como margaridas ou os tomates da minha tia Soraya. Que se pusessem as sementes cor de aurora nalguma terra fria e se esperasse entropia fazer a mágica. Otário. Depois, com os ultra-românticos, pensei que era substância. Que se dava a alguém como uma bandeja de brigadeiros depois do almoço. Triste. As flores da primavera murcharam e eu nem percebi. Tanto precisei penar no deserto pra perceber que não estou isolado de nada. E que até folhas e os beijos e os buracos negros amam em mim e empurram-me pra frente, mesmo encarando um mar de corolas ou cadeiras de tortura.

Aquém de mim, e além de mim, eu sou a própria dinâmica. Mas os homens aprenderam a ver só os recortes. Porque seus limites eram a extensão da moldura de seus olhos. Perderam o movimento. E se tudo é movimento, a melhor forma de viver é dançando. Entre a euforia e a despotencialização do corpo, aprendi a não hesitar perante o abismo. O quão absurdo era o “eu te amo”, se ninguém ama nada além do que resto do mundo, das horas e os detalhes do dia permitem. Porque eu só participo de tudo isso. E vejo as coisas passarem como filmes. Um fantasma parado e perpassado pelas coisas que querem ser escritas. Amadas. Subjugadas ao resto que o caos permite eliciar.

Percebo, atento, que o amor é que nem vento. E é preciso deixar chocar no rosto. O resto do planeta corroía em ferrugem enquanto flores nasciam nas crateras do fim do mundo. “Meu dia foi azul” Ela me disse. E eu, que só via em cinzento, demorei pra entender. Porque já tinha sido engolido. Porque entender e descrever as cordas que te prendem, os silícios que te sangram, não eliminam a doença que aflige. Só te mostram o que já está perdido.

(Poeta Bastardo)



Categoria: Prosa |
| Postado em: 18.11.13

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