Un Lun Dun

A culpa de tudo é de Tolkien. Em toda aventura de “fantasia” se pensa num grupo de heróis ajudando a restaurar a feliz ordem de características feudais. Alguns dizem que o subgênero de fantasia medieval é apenas uma variação dos livros de cavalaria, uma parodia de Cervantes. Mas às vezes surgem pessoas como China Miéville, que escrevem algo fantástico, como o “Un Lun Dun”. Um livro cuja organização política do mundo sugere que a autoridade pode e deve ser questionada.

Miéville não faz nada de diferente neste livro do que já fez antes de Bas-Lag, ou depois em “The city and the city”, entretanto, é sua maneira de fazê-lo, no marco da narração de ritmo rápido e linguagem simples, que o torna único.

A ideia é da existência de uma “Não Londres” formada por uma população variada e constituída do lixo de uma Londres “normal”; cuja presença do Smog seria um inócuo “ecologismo” e que existem interesses industriais por trás destas ações; a intolerância frente à mestiçagem é demonstrada em Hemi, criança nascida da união entre um humano e um fantasma, capaz de desenvolver-se em ambos os mundos; existe também um tirano que impõe as palavras o significado que deseja, até que estas se rebelam dando um ar divertido ao estilo Lewis Carroll, ainda que falte um pouco de Orwell.

O livro é um grande jogo, construindo imagens difíceis de traduzir – como, por exemplo, a analogia entre janelas e aranhas (black window-black widow)? Que da origem a um dos capítulos mais memoráveis do livro -, além de dinamitar a tradição de maneira maliciosa, já que Miéville faz com que o livro se equivoque. Há tantas ideias sugestivas, monstros, perseguidores e espíritos rebeldes como em qualquer outra novela de China Miéville. Não é um livro ácido, nem controvertido, sua subversão é leve, rompendo pequenos tabus das ficções infantis.

(Poeta Mórbido)

 



Categoria: Resenha |
| Postado em: 18.05.16