Guernica

autoria:

Subsiste, Guernica, o exemplo macho,
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.

A força do teu coração desencadeado
Contatou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.

(Murilo Mendes)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 18.11.13

Euphorya

Meu dia foi azul – ela disse.

Agora que tudo já foi engolido, é difícil imaginar coisas vivas desse jeito. Eu percebia que estava mal por começar a escrever bem. Era como um presente. Menos que isso, bem menos, era como um chulo adicional de insalubridade por viver ali, no mundo. Vamos lá, durante essa semana a caneta lhe renderá palavras a mais, sintaxes perfeitas, metáforas brilhantes. Articular vocábulos fantasmagóricos, iludir mocinhas com sonetos refinados sobre a primavera e a bossa nova. Tudo por preço simples: sua vontade de acordar. Aqueles dias eram tão lentos e a época tornava-se tão eufórica. Pela manhã, já não sabia se o mau grado a responder o despertador era só uma indisposição do dia a dia ou realmente era preguiça de viver.

Era tanta coisa ao mesmo tempo. Acho que as pessoas não merecem isso. A cidade era como um órgão doente e inflamado. O país, um grande corpo moribundo. Camadas esverdeadas de pus entravam pela minha janela. O alastrim social adoecia as pessoas mesmo que protegidas dentro de suas casas. Os psicanalistas eram os novos padres. E os antigos padres inventaram a castração. Depois, inventaram a masturbação. E disseram que o mundo não seria o bastante pra gozar. Desenharam um buraco vazio no homem.

Meus rins já se tornavam motores velhos e meus pulmões já eram dois pedaços secos de carniça. O meu ópio legalizado. Qualquer pancada na cabeça valia. Fugir. Pra longe. Parar de tossir papéis com carimbos, protocolos de seções administrativas organizadas em estratificações robóticas. Usar escritos pra lubrificar o que sobrava das engrenagens. Como ser um bom cidadão preparado para o mercado de trabalho sem ser engolido pelos tentáculos do kraken que era o estado? Não, não queriam indivíduos, queriam talheres, ferramentas. E ferramentas não pensam. Noites sem eira nem beira que se misturavam ao cheiro angustiante de rivotril e licores de menta. A vida era um cigarro. E me tragava aos poucos. Como um pacto demoníaco. Um prazer aprendido de baforar almas incertas no ar, em troca de alguns anos a menos. Talvez muitos. Era justo.

Aonde chegamos que ganhar na loteria é um motivo de alegria, um ideal? Bancos diziam pelas ruas: “Realize agora seu sonho de ter um carro próprio com nossos planos!” O sonho humano foi resumido a isso. Ninguém queria carros, mas desejavam camaros e ferraris. Comer um cachorro quente no seu João certamente não era a mesma coisa de comer um Subway, dito saudável, com todos aqueles quadros bem nítidos de legumes e cookies espalhados pelas paredes bem limpas. Por que as atendentes tinham a expressão tão triste? Eu não quero Sky, amigo. Queria uma programação decente e não precisar pagar pra ver algum nível de cultura sair da merda da TV, que não fossem as mesmas marionetes rindo de piadas sem graça e bundas cheias de celulite iludindo algum torcedor de um time inútil, com uma cerveja na mão. Que importa o símbolo? Que importa se a esquerda ou a direita vão dirigir o país se ambos querem o lucro? Foices e martelos e tucanos e letras incontáveis eram a mesma sopa de bernes empapadas de suor humano. Comprar pão antes de ir pra casa. Que até a alma está à venda. As clínicas terapêuticas são a prova concreta de que a humanidade faliu. Nós falhamos. Nós desistimos.

Perdeu-se a capacidade de afetar e ser afetado. É tudo mercadoria. Quando jovem e leitor de Hugo, imaginava que o amor se cultivava. Como margaridas ou os tomates da minha tia Soraya. Que se pusessem as sementes cor de aurora nalguma terra fria e se esperasse entropia fazer a mágica. Otário. Depois, com os ultra-românticos, pensei que era substância. Que se dava a alguém como uma bandeja de brigadeiros depois do almoço. Triste. As flores da primavera murcharam e eu nem percebi. Tanto precisei penar no deserto pra perceber que não estou isolado de nada. E que até folhas e os beijos e os buracos negros amam em mim e empurram-me pra frente, mesmo encarando um mar de corolas ou cadeiras de tortura.

Aquém de mim, e além de mim, eu sou a própria dinâmica. Mas os homens aprenderam a ver só os recortes. Porque seus limites eram a extensão da moldura de seus olhos. Perderam o movimento. E se tudo é movimento, a melhor forma de viver é dançando. Entre a euforia e a despotencialização do corpo, aprendi a não hesitar perante o abismo. O quão absurdo era o “eu te amo”, se ninguém ama nada além do que resto do mundo, das horas e os detalhes do dia permitem. Porque eu só participo de tudo isso. E vejo as coisas passarem como filmes. Um fantasma parado e perpassado pelas coisas que querem ser escritas. Amadas. Subjugadas ao resto que o caos permite eliciar.

Percebo, atento, que o amor é que nem vento. E é preciso deixar chocar no rosto. O resto do planeta corroía em ferrugem enquanto flores nasciam nas crateras do fim do mundo. “Meu dia foi azul” Ela me disse. E eu, que só via em cinzento, demorei pra entender. Porque já tinha sido engolido. Porque entender e descrever as cordas que te prendem, os silícios que te sangram, não eliminam a doença que aflige. Só te mostram o que já está perdido.

(Poeta Bastardo)



Categoria: Prosa |
| Postado em: 18.11.13

5 de novembro

Remember, remember!
The fifth of November,
The Gunpowder treason and plot;
I know of no reason
Why the Gunpowder treason
Should ever be forgot!

Lembrai, lembrai do 5 de novembro,
À pólvora, a traição e o ardil,
não sei de nenhuma razão
para que a traição da pólvora
seja algum dia esquecida.

Guy Fawkes, Guy Fawkes,
Esta era sua intenção:
Explodir o rei e o Parlamento.
Três montes de barris de pólvora
abaixo para derrubar a pobre Inglaterra,
pela providencia divina foi capturado
com uma lanterna escura e um fósforo.

Halloa boys, halloa boys, façam os sinos tocar,
Halloa boys, halloa boys, Deus salve o Rei,
Hip hip horray…

Uma migalha de pão para alimentar o Papa,
Uma fatia de queijo para sufocar ele,
Uma taça de cerveja para lavá-lo,
Um feixe de varas para queimá-lo.

Queime-o em um banho de alcatrão.
Queime-o como uma estrela brilhante.
Queimar o seu corpo a partir de sua cabeça.
Então, vamos dizer o Papa está morto.

(Cultura Popular Britânica)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 5.11.13

Pensamento

Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. Os criadores de caso. Os pinos redondos nos buracos quadrados. Aqueles que vêem as coisas de forma diferente. Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo. Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los. Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los. Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente. E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais. Porque as pessoas loucas o bastante para acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam.

(Antonin Artaud)



Categoria: Prosa |
| Postado em: 1.11.13

Uruguayos Campeones

Uruguayos campeones de América y del mundo!
Esforzados atletas que acaban de triunfar
Los clarines que dieron las dianas en colombes
Mas allá de los andes volvieron a sonar

El pueblo de Francia en las olimpiadas
Aplaudió entusiasta su triunfo mundial
Y hoy en Sudamérica late alborozada
Admira la gloria del “team” oriental

El team chileno, el boliviano,
el argentino y el paraguayo
fueron vencidos por el invicto,
pujante y fuerte “team” uruguayo.

Uruguayos campeones de América y del mundo,
esforzados atletas que acaban de triunfar,
los clarines que dieron las dianas en Colombes
más allá de los Andes volvieron a sonar.

Los yugoslavos, los italianos,
los japoneses y los porteños
fueron vencidos por los campeones
por los campeones del mundo entero.

En el 50, como en el 30
Los brasileros y los porteños
Fueron vencidos por los campeones
Por los campeones del mundo entero

Invictos en Europa Invictos en América
Del mundo son campeones de América lo son
Los mismos que en colombes en campo del unioa
Pasearon victoriosos el Patrio pabellón

Uruguayos campeones de América y del mundo!
Esforzados atletas que acaban de triunfar
Los clarines que dieron las dianas en colombes
Mas allá de los andes volvieron a sonar

En el 50, como en el 30
Los brasileros y los porteños
Fueron vencidos por los campeones
Por los campeones del mundo entero.

(Tabaré Cardozo)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 30.10.13

Barco a vela

autoria:

Parti de manhã
rumo a montanha
Preparei os meus cavalos
e desarmei a minha cabana

O sol já está se pondo
a chuva logo iria cair
A minha mala já arrumada
já estou pronta pra partir

(Refrão)
O meu lugar não é aqui
eu já falei que vou fugir
Se você quer, pode me seguir
só tenho um barco a vela mas já dá de sorrir

O dia já raiou
e no almoço um melão
Pensei que tinha esquecido
o quão bom era a solidão

Era noite tinha lua
já começou a me encantar
então lembrei da minha canção
e já me pus a entoar

(Refrão)
O meu lugar não é aqui
eu já falei que vou fugir
Se você quer, pode me seguir
só tenho um barco a vela mas já dá de sorrir…

(Watermeland)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 28.10.13

Cielo de un solo color

Cuantas lunas que se van
y nosotros esperando
que despierte el corazón
que parece estar quebrado
todo el tiempo que pasó
no me aleja de tu lado

Cielo de un solo color

Que me sigue enamorando
hay algo que sigue vivo
nos renueva la ilusión
y en el último suspiro…
el momento ya llegó
con los dientes apretados

Cielo de un solo color

En el alma está guardado
vida, que vida pobre
vivir la en este lugar
qué saben, qué saben ellos
que no le pueden cantar
hay algo que sigue vivo
nos renueva la ilusión
y en el último suspiro…

Ay, celeste regaláme un sol…

(No Te Va Gustar)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 20.10.13

Flores

De um pequeno degrau dourado -, entre os cordões
de seda, os cinzentos véus de gaze, os veludos verdes
e os discos de cristal que enegrecem como bronze
ao sol -, vejo a digital abrir-se sobre um tapete de filigranas
de prata, de olhos e de cabeleiras.

Peças de ouro amarelo espalhadas sobre a ágata, pilastras
de mogno sustentando uma cúpula de esmeraldas,
buquês de cetim branco e de finas varas de rubis
rodeiam a rosa d’água.

Como um deus de enormes olhos azuis e de formas
de neve, o mar e o céu atraem aos terraços de mármore
a multidão das rosas fortes e jovens.

(Arthur Rimbaud)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 18.10.13

Renunciar à Sede de Poder

autoria:

Quem não conheceu a tentação de ser o primeiro na cidade nada compreenderá do jogo político, da vontade de submeter os outros para deles fazer objetos, nem adivinhará os elementos de que é composta a arte do desprezo. A sede de poder, raros são os que não a tenham num grau ou noutro experimentado: é-nos natural, e contudo, se a considerarmos melhor, assume todos os caracteres de um estado mórbido do qual apenas nos curamos por acidente ou então por meio de um amadurecimento interior, aparentado com o que se operou em Carlos V quando, ao abdicar em Bruxelas, no topo da sua glória, ensinou ao mundo que o excesso de cansaço podia suscitar cenas tão admiráveis como o excesso de coragem. Mas, anomalia ou maravilha, a renúncia, desafio às nossas constantes, à nossa identidade, sobrevém somente em momentos excepcionais, caso limite que satisfaz o filósofo e perturba profundamente o historiador.

(Emil Cioran – História e Utopia)

 



Categoria: Prosa |
| Postado em: 16.10.13

Sobre Mesa

A tarde escurece doce
no calendário.

Sabe, fiquei com uma gravação
onde cantávamos juntos
uma música do Cazuza.

Fiquei também com cartas rasgadas pelo tempo,
empoeiradas de mofo e silêncio.

Estão lá, indiferentes a mim,
guardadas num armário perfumado
de esquecimento.

E você com o que ficou de mim?
O sexo, alguns punhados de maconha,
e minha carteira de cigarros?

Catarros e a marca dos dentes de um leão
que abocanha o seu pescoço.

O que diabos você tem de
diferente das outras?

Por que essa bocas não beijam
e não chupam como a sua?

A tarde escurece amarga
no calendário.

Sobre antigos lençóis
de sonho e de tesão.

Penso nisso enquanto chupo um sorvete,
tão gelado quanto teu coração.

(Poeta Bastardo)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 15.10.13
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