Colinas de Mississippi: Meu Epitáfio

Distantes colinas azuis, nas quais me agradei
na primavera seguinte com pés de prata e manto
do dogwood floridos, entoando o “Lover”, Pássaro Azul,
enquanto eu vou até o fim da estrada avistada.
Que esta suave boca, moldada para a chuva,
não seja, por toda dor, mas pela áurea dor,
e que estes verdes bosques sonhem aqui com o despertar-se
no meu coração quando regresse.
E regressarei! Onde está a morte
se em estas azuis e sonolentas colinas, ali no alto,
tenho eu, como uma árvore, minha raiz? Ainda que esteja morto,
este solo que me circunda e há de dar-me alento.
A árvore ferida não alberga um verde novo para chorar
os anos dourados que gastamos em comprar dor.
Que esta seja minha condenação, esquecer,
que ainda falta a primavera para agitar e quebrar o meu sonho.

(William Faulkner)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 23.02.14

Chamado Selvagem

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A escuridão tomava o lugar, o cheiro de merda e enxofre entorpecia sua mente. Ouvia o barulho da ninhada de ratos e sentia que alguém o espreitava. Estava vendado com o rosto inchado por uma turba de monstros. Naquela noite sentiu um cheiro diferente, uma excrescência nauseante, um cheiro pútrido agridoce que ninguém mais notava.

Sentiu a faca talhar um pequeno corte diagonal feito com precisão cirúrgica perpassando a derme, os músculos e arranhar o forame do processo xifóide. Ouviu depois o barulho de corrente. Era a vez do gancho. O mesmo foi engatado no corte e ele foi içado com força. O sangue verteu e lambeu o solo. Ainda assim, negou-se a responder qualquer pergunta. E a noite continuou a cortar e esfolar. A ninhada de ratos se satisfez devorando as partes arrancadas. A turba não voltaria àquele galpão. Sobrou apenas seu algoz. Concentrou-se para ouvir o chamado. A floresta o clama. O chamado selvagem.

O algoz percebeu os grilhões sendo rompidos. Pegou o gancho e espreitou a escuridão, percebendo que a escuridão espreitou de volta. Agora era a presa. O monstro estava liberto e furioso. Era um monstro diferente. Moveu-se vagarosamente em direção ao portão. Sentia os olhos seguindo seu movimento e o calor da respiração. Perguntou-se porque estava com medo já que suas glândulas estavam mortas há muitos anos. Parou de simular humanidade, não havia vantagem nenhuma em fingir ser um humano. Sentiu ou pensou sentir ânsia de vomito que o ser humano causava-lhe, repugnante, vermes precisando de reis e políticos para guiá-los para além da latrina fétida do qual nasceram. Era a personificação das sombras, então se fundiu a escuridão e preparou as presas…

É a noite que os espíritos são libertos, espectros do caos e da desordem. À noite escapam os traficantes, pedófilos, estupradores e toda escoria da sociedade. Um ambiente propício para sanguessugas, parasitas que vivem da escoria do que chamamos sociedade humana. Esses parasitas estão bem organizados, estão nas mais diferentes áreas do poder, espalhando corrupção, alastrando maldade, corrompendo mentes com livros e filmes fast-food – divertidos, mas nada nutritivos. É na noite que eles se proliferam, as metáfora de sombras que se afastam da luz, a antítese da vida e do devir.

Eu sou a fera! Sou o caçador e o lobo, sou o chamado selvagem, a força da vida em seu estado mais bruto. Não existirá nada que não possa farejar; nada que possa me fazer recuar, nenhum ômega pode parar o alfa. Sou o começo que chega após o fim. Saiba que a lua sempre está cheia, mesmo que algumas vezes só possamos ver parte dela, mas pode-se escutar seu chamado, o seu chamado selvagem…



Categoria: Chamado Selvagem |
| Postado em: 3.12.13

Milonga en Dó

Pôr del Sol – Uruguay

Milonga en dó,
canto menor,
cuántas canciones nacieron
con tu emoción;
dulce milonga
enamorada de todos,
como una planta
crece en la garganta;
nace tu flor sin color
en cualquier corazón
-perfume de otra canción-.

Toca mi amor
tu suave flor
crecida en la quinta cuerda
milonga en dó,
ronco silencio
en el bordón que no llora;
¿quién de nosotros
no sabe del otro?;
milonga para cantar
y saber esperar,
nacida en cualquier lugar.

Canción de ayer,
voz de mujer,
hoy, como entonces,
sirena llamándome,
camino abierto desde siempre
y no acaba,
lleno de voces
como una guitarra:
mi pueblo es una canción
transida de dolor
templando un tono mayor.

Mi pueblo es una canción
transida de dolor
templando un tono mayor.

(Alfredo Zitarrosa)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 15.12.11

Milonga de Pelo Largo

Milonga de pelo largo de ojos oscuros
como la noche,como la noche.
Historias de penas grandes de gente joven,
de penas viejas, de 20 años.

Consuelo de los que viven siempre arrastrados,
por la rutina, que cosa seria.
Recuerdos de los que huyen de nuestra tierra,
de la miseria, de la violencia.

Te ofrezco mis margaritas que están vacías,
que están marchitas, que ya están secas.
Te doy todas las renuncias de cosas simples,
que llevo hechas, que llevo hechas.

Milonga mi compañera que me comprende,
que me protege y me abriga.
Frazada del pobre hombre que siente frío
y no se queja, ya no se queja.

Hey, hey, hey, hey, hey, hey
Ya no se queja…

(Gastón Ciarlo ‘Dino’)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 10.09.11

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

(Carlos Drummond de Andrade)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 5.09.11

O Poeta Futuro

autoria:

O poeta futuro já se encontra no meio de vós,
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e de místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.
O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida
Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido.

O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que logo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.

O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
Aos que asfixiam órfãos e operários.

(Murilo Mendes)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 3.09.11

A Flauta Vértebra

Premonition of Civl War – Salvador Dalí

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

(Vladimir Maiakovski)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 2.09.11

Eu

Nas calçadas pisadas
de minha alma
passadas de loucos estalam
calcâneo de frases ásperas
Onde forcas esganam cidades
e em nós de nuvens coagulam
pescoço de torres oblíquas
só soluçando eu avanço
por vias que se encruzilham
à vista de crucifixos polícias

(Vladimir Maiakovski)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 2.09.11

A Cristandade


Padre açúcar,
Que estais no céu
Da monocultura,
Santificado
Seja o vosso lucro,
Venha a nós o vosso reino
De lúbricas mulatas
E lídimas patacas,
Seja feita
A vossa vontade,
Assim na casa-grande
Como na senzala.
O ouro nosso
De cada dia
Nos dai hoje
E perdoai nossas dívidas
Assim como perdoamos
O escrava faltoso
Depois de puni-lo.
Não nos deixeis cair em tentação
De liberalismo,
Mas livrai-nos de todo
Remorso, amém.

(José Paulo Paes)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 30.08.11

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar

– Lá sou amigo do rei –

Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

(Manuel Bandeira)



Categoria: Poesia |
| Postado em: 25.08.11
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