Clube da Luta

E Tyler insiste:

– Não esqueça que você prometeu três vezes. Uma camada grossa e branca começa a se formar na superfície das caixas de leite, dentro da geladeira. Olhe, eu mostro, está começando a separar.

– Não se preocupe. Essa camada branca é glicerina. Você pode misturar a glicerina outra vez para fazer o sabão. Ou pode jogar fora.

Tyler molha os lábios com saliva e põe minha mão sobre sua coxa, a palma virada para baixo, no roupão de banho aflanelado.

– Você pode misturar glicerina com ácido nítrico e fazer nitroglicerina – diz ele.

Respiro pela boca e repito, nitroglicerina.

Ele molha novamente os lábios e beija as costas da minha mão.

– Pode misturar nitroglicerina com nitrato de sódio e pó de serra e fazer dinamite – continua Tyler.

O beijo molhado brilha nas costas da minha mão. Dinamite, repito, e me sento sobre os calcanhares. Tyler levanta a tampa da lata de soda. Pode explodir uma ponte.

– Pode misturar nitroglicerina com mais ácido-nítrico e parafina e fazer gelatina explosiva – continua ele.

– Pode explodir um prédio – decreta Tyler. Tyler inclina a lata de soda sobre o beijo molhado, nas costas da minha mão.

– Isto é queimadura química, mas dói muito mais do que queimadura de fogo. É pior que cem cigarros.

O beijo molhado brilha nas costas da minha mão

– Você vai ganhar uma cicatriz.

Tendo bastante sabão, é possível explodir o mundo. Agora se lembre do que prometeu. E Tyler despeja a soda. A saliva de Tyler teve duas consequências. O beijo molhado colou os flocos de soda nas costas da minha mão e ficou queimando. Esse foi o primeiro efeito. O segundo é que a soda só queima se for misturada com água. Ou saliva.

– É queimadura química – diz Tyler – e dói muito mais do que qualquer queimadura que você conheça. Você pode usar soda para desentupir cano de esgoto.

Fecho os olhos.

Uma pasta de soda e água pode furar uma panela de alumínio. Misturada com água, a soda esquenta a mais de duzentos graus, à medida que vai esquentando queima as costas da minha mão, e Tyler põe a mão sobre a minha e nossas mãos se abrem sobre a minha perna, na calça suja de sangue, e Tyler diz para eu prestar atenção porque é o momento mais importante da minha vida.

– Porque se até agora foi uma história, daqui para a frente será outra história. Este é o momento mais importante da nossa vida.

A soda cáustica grudada perfeitamente sobre o beijo de Tyler é uma fogueira, um ferro em brasa um reator atômico derretendo minha mão no final de uma estrada muito, muito longa que vejo estender-se na minha frente. Tyler pede que eu volte e fique com ele. Minha mão vai desaparecendo, minúscula no horizonte, no final da estrada. Imagine o fogo queimando, só que, agora, além do horizonte. No crepúsculo.

– Volte para a dor – ordena Tyler.

Isso me lembra a meditação dirigida dos grupos de apoio. Não pense na palavra “dor”. A meditação dirigida funciona para o câncer, mas não para isto.

– Olhe para a sua mão – diz Tyler. Não olhe para a sua mão.

E não pense nas palavras “queimar”, “carne”, “pele”, “carbonizar”. Não ouça os próprios gritos. Meditação dirigida. Você está na Irlanda. Feche os olhos. Você está na Irlanda no verão, depois da faculdade, e está bebendo num pub próximo ao castelo onde ônibus diários carregados de turistas ingleses e americanos chegam para beijar a pedra Blarney.

– Não limpe. Sabão e o sacrifício humano andam de mãos dadas – diz Tyler.

Você sai do pub com outros homens e caminha em silêncio por entre os carros molhados pela chuva que acabou de cair. É noite. E chega ao castelo da pedra Blarney. Os pisos do castelo estão podres, e você sobe as escadas de pedra, a escuridão vai ficando mais e mais profunda por todo lado, a cada degrau. Todos sobem em silêncio, é a tradição deste pequeno ato de rebeldia.

– Ouça, abra os olhos – diz Tyler. Na história antiga – continua ele – os sacrifícios humanos eram feitos em colinas à beira dos rios. Eram milhares de pessoas. Ouça o que estou dizendo. Nesses sacrifícios os corpos eram queimados numa pira.

 – Pode chorar – diz Tyler.

 – Pode ir até a pia e deixar a água correr na sua mão, mas antes precisa saber que você é um estúpido e que vai morrer. Olhe para mim.

Você está na Irlanda.

– Pode chorar – diz Tyler – mas cada lágrima que cair nos flocos de soda vai deixar a marca de uma queimadura de cigarro.

Meditação dirigida. Você está na Irlanda no verão, depois da faculdade, e talvez tenha sido quando desejou a anarquia pela primeira vez. Muito antes de conhecer Tyler Durden, antes de mijar no seu primeiro crême anglaise, aprendeu pequenos atos de rebeldia. Na Irlanda. Você está na plataforma, no alto da escadaria do castelo.

– Podemos pôr vinagre para neutralizar a queimadura, mas você vai ter de pedir – diz Tyler. Depois que dezenas de pessoas são sacrificadas e queimadas, continua Tyler, uma gosma branca desce pela encosta e cai no rio. Primeiro você terá de chegar ao fundo.

Você está na plataforma do castelo irlandês rodeado pela escuridão abissal, e na sua frente, não muito longe, há um muro de pedra.

– Chove na pira ardente ano após ano, as pessoas são queimadas ano após ano, e a água penetra no carvão que se transforma em soda cáustica, e a soda se mistura com a banha derretida dos sacrifícios e uma gosma branca de sabão se desprende do pé do altar e desce pela encosta em direção ao rio.

E os irlandeses que estão em volta de você e de seu pequeno ato de rebeldia no meio da escuridão aproximam-se da beira da plataforma, param sobre a escuridão abissal e começam a mijar. E dizem, vá em frente, solte seu fantástico mijo americano farto e amarelo e cheio de vitaminas. Farto, caro e inútil.

– Este é o momento mais importante da sua vida – diz Tyler – e você nem está aqui para ver.

Você está na Irlanda. Ah, e está mijando. Ah, sim. Tem cheiro de amônia e das doses diárias de vitamina B.

Onde o sabão cai no rio, diz Tyler, depois de milhares de anos de chuva e gente morta, os antigos descobrem que as roupas lavadas nesse lugar ficam mais limpas.

Estou mijando na pedra Blarney.

– Porra! – grita Tyler.

Estou mijando na calça preta manchada de sangue ressecado que quase fez meu chefe vomitar. Você está numa casa alugada da Paper Street.

– Isso não é nada – diz Tyler.

– É só um sinal – diz Tyler. Tyler é cheio das informações úteis. As culturas que não conhecem o sabão, continua ele, usam a própria urina e a urina de seus cachorros para lavar as roupas e o cabelo, por causa do ácido úrico e da amônia.

Sinto cheiro de vinagre, e o fogo que queima a minha mão, no fim da longa estrada, é apagado. Sinto cheiro de soda cáustica penetrando nas cavidades nasais e um cheiro de vômito hospitalar de mijo e vinagre.

– Fizeram bem em matar toda aquela gente – continua Tyler.

As costas da sua mão estão vermelhas e inchadas como dois lábios perfeitos do beijo de Tyler. Em volta do beijo, as queimaduras provocadas pelas lágrimas de alguém que chorou.

– Abra os olhos – diz Tyler, com o rosto banhado em lágrimas. – Meus parabéns. Você está a um passo do fundo.

Vai ver – continua ele – que o primeiro sabão foi feito de heróis. Pense nos animais usados em testes de produtos. Pense nos macacos lançados ao espaço. – Se eles não morressem, se não sofressem, sem o sacrifício deles não seríamos nada – conclui Tyler.

(Chuck Palahniuk)



Categoria: Prosa |
| Postado em: 10.06.14

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