Chamado Selvagem

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Despertou do torpor ritualístico ao qual estava encarcerado. Pensou nos aspectos mais importantes de sua condição, naquelas pequenas coisas triviais aos quais os repugnantes humanos não se dão conta. Primeiramente pensou seu sistema circulatório, alongou-se, retirando-se da letargia, daquele rigor mortis. Tudo estava nos detalhes. Pensou em batimentos cardíacos, 60 batimentos cardíacos por minuto em situação de repouso, 130 batimentos por minuto em situação de esforço. Lembrou-se de respirar, num mesmo ritmo sistólico e diastólico. Poucos eram os artistas capazes de lembrar todas as sutilezas da existência humana, era uma arte que apenas algumas pessoas ligadas à tanatologia poderiam apreciar.

Cada pequena micro ação, micro função, cuidadosamente calculada pelo córtex frontal, a quantidade exata de força aplicada aos músculos, o peso correto sobre os ossos e ligamentos, tudo equilibrado e quantificado. Um esforço constante para manter o rebanho seguro de suas crenças e não chamar a atenção indevida. Tal esforço não seria nada se o toque final fosse mal feito, os olhos…

Os malditos olhos eram a parte mais complicada de toda arte. E ele como um ourives criava os olhos mais belos que se podia criar, dominava a arte como nenhum outro era capaz de fazer. Os poucos de sua espécie iam até ele para aprender a disfarçar os olhos tão bem como o que ele fazia. Mas sua arte era muito requintada, não era apenas cor, brilho e sangue. Seus olhos demonstravam alma…

Os olhos que conseguia fazer para si deixariam Michelangelo envergonhado de sua Pietà. Era um grande artista, um grande artista das sombras, um verdadeiro marginal na terra de Nod. Todo esse trabalho artístico jamais poderia ser apreciado, ninguém jamais saberia o esforço hercúleo para humanizar-se e o quão repugnante era misturar-se com o esses seres de barro, lama e fezes.

Éramos faraós e um dos nossos se deixou enganar por truques e palavras de um charlatão! Éramos incubus e sucubus, éramos Itzamna, Hunhunahpu, Hunbatz, Hunchouen; éramos os governantes deste mundo. Então pensamos que não era o bastante. Queríamos mais… Queríamos a própria humanidade, sua estupidez, ignorância, luxuria e excrescência. Não nos bastávamos. Não. Tínhamos que nos rebaixar mais. De deuses passamos aos sábios, de sábios passamos a filósofos, de filósofos a políticos, de políticos a professores, e de professores a mitos. Escondemo-nos tanto. Fingimos tanto, que já não sabemos quem somos. Tão perdidos como o rebanho…

Ah, mas eu não… Eu nunca me esqueço.



Categoria: Chamado Selvagem |
| Postado em: 8.03.14

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