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Seis e Meia

Todo dia de manha às seis e meia ela vai à panificadora e compra algumas moedas de pão francês e um litro de leite integral. Cabelo quebradiço dedos de unhas mordidas e mãos de quem conheceu cedo a madeira áspera de uma enxada. Um par de velhas havaianas amarelas com um desenho da bandeira do Brasil suportam seus pés escurecidos e sujos de uma poeira vermelha.

Seu corpinho franzino de pele seca e ossos proeminentes sustenta um vestidinho de pano fino e maltratado que sua mãe lutara e vira a glória ao comprar. Um andar desconfiado e desajeitado a empurra pelo corredor limpo e bem encerado da seção de frios e massas. Escolhe os pãezinhos um a um, sempre os mais branquinhos e macios. As prateleiras parecem mundos de maravilhas com seus doces bonitos e refrigerantes de sabores desconhecidos.

Ela não se pergunta se num futuro próximo haverá um lugar desses, onde ela possa trabalhar. Não se pergunta de onde vem o trigo usado pra deixar a massa dos pães tão saborosa. Não se pergunta nem se esses pães realmente vieram da França… Ela se questiona às vezes pela noite onde estaria seu pai. Sonha com um daqueles bolos de chocolate que vê todo dia de manhã. Um bem gigante! Pra poder dividir com seus irmãos assim como divide sua cama e seu suor. Pede ao seu Deus pra não ver mais sua mãe chorando antes de dormir…

Espera alguns minutinhos na fila observando atenta as coisas que passam na TV, presa a parede. Estica-se um pouco pra alcançar o balcão do caixa e paga o café da manhã de sua família sem nunca esquecer os vinte e cinco centavos de troco. O aroma da massa ainda lhe tortura assim como tantas coisas que ela não entenderá. Volta pra casa com um passo lento e ininterrupto. Não há com o que se preocupar. Ninguém a reparou. Ninguém irá reclamar de nada. Sua mãe pode perdoar sua demora. O dono da padaria pode perdoar seus pés sujos. O mundo pode perdoar a ausência de um sorriso.

(Poeta Bastardo)



Categoria: Prosa |
| Postado em: 7.12.12

Canto 2

Cantos de Maldoror

Chegada ao fim da rua, voltou-se lentamente, de modo a impedir-me a passagem. Não tive tempo de me esquivar e achei-me cara a cara com ela. Tinha os olhos inchados e vermelhos. Era fácil ver que me queria falar e que não sabia como consegui-lo. Tornou-se de repente pálida como um cadáver e perguntou-me: “- Podia fazer o favor de me dizer as horas?”. Disse-lhe que não usava relógio e afastei-me rapidamente. Desde esse dia, ó criança de imaginação inquieta e precoce, nunca mais voltaste a ver na rua estreita aquela jovem misteriosa que pisava penosamente com pesadas sandálias o chão dos tortuosos cruzamentos. Não tornará a luzir a aparição deste cometa em chamas, como um triste motivo de fanática curiosidade, sobre a fachada da tua imaginação iludida; e pensarás muitas vezes, demasiadas vezes, e talvez sempre, naquela que não parecia inquietar-se nem com os males nem com os bens da vida presente, e ia andando ao acaso, com um rosto horrivelmente morto, de cabelo eriçado, passo vacilante e braços nadando cegamente nas águas irônicas do éter, como que a procurar nelas a presa ensanguentada da esperança, constantemente sacudida através das imensas regiões do espaço pelo implacável limpa-neve da fatalidade. Não me tornarás a ver e eu não te verei mais!… Quem sabe?

(Conde de Lautréamont)

 



Categoria: Prosa |
| Postado em: 8.08.12

Entre Quartos e Linhas

Programou a conta de e-mail pra mandar um coração por dia no endereço digital dela. Um pra cada dia que ela passasse de férias de fim de ano no sul, casa de seu pai. Mas havia centenas de corações vermelho-sangue em cada e-mail que ele havia enviado, observou ela depois de ligar o computador. “Não era só um por dia, amor?” Escreveu pra ele depois da surpresa, não tão emocionada quanto talvez se esperasse. “Todos os dias irei te dar todo amor do mundo. Não importa a distância, o espaço-tempo, o dia e a noite. Pra todo o sempre terei todo o sentimento que posso conceber dentro de mim pra você”, respondeu ele, quase de imediato. Os olhos dela brilharam um brilho úmido que refletia todas as cores do quarto em um único ponto branco e cintilante, como uma estrela. Escreveu versos de amor eterno e puro. “Enviar”, clicou. Pareciam sustentar um e outro com a força de suas palavras. Sim. Ele a amava mais do que qualquer outra cosia viva criada por Deus. A personificação pulsante de todo o sentido e razão que um dia poderia mover sua frágil existência. Era ela. Talvez desde os primórdios dos castelos até a união da mente humana e a máquina. Ele a amava. E pra sempre amaria. Como nos livros.

*

A força dos movimentos abruptos e contínuos e das batidas não acordara a criança lá em baixo, na sala. O menino de uns dez anos ainda dormia como um porquinho da índia no sofá. Encolhido. O controle do Playstation 3, ainda vibrando, pousado próximo ao braço. Provavelmente já perdera todos os bônus e créditos de mais um jogo de alta resolução, violento, complexo e sem uma gota de roteiro. Que pena. Deixara de fazer tantos deveres de casa de matemática pra conseguir subir de nível. Teria dormido mesmo? Talvez seus olhos apontados para o assento do sofá estivessem semiabertos. E seus ouvidos mais abertos que um coração apaixonado. O teto ainda vibrava com pequenas pancadas em intervalos de tempo quase calculáveis. Talvez o menino estivesse acordado e tivesse medo. Sem saber. Sem conhecer. O medo daquilo que um dia poderia lhe ferir ainda mais. Mais do que qualquer headshot que um dia tivesse levado em suas madrugadas de jogo.

*

Era um suor salgado que fedia a humanos. Já passara certo tempo e agora os gritos eram audíveis com facilidade. Sua perna estremecia e era posta de formas diversas, quase impensáveis. Marcas vermelhas que lembravam desenhos de criança; subiam pela coxa e estendiam-se pelas costas passando pela virilha e auréolos. Era uma dor boa, que a fazia visitar campos gregos de sensações e epifanias insubstituíveis. A contemplação da obra de arte concretizada em um fundir de corpos. Ainda com aquele odor humano. A Karthasis da criação. Violência medida. Líquidos interiores espirrados e mesclados em pele e vontade. E ela queria mais. Queria tudo. Ali. Talvez depois em outro lugar. Típico ou não. Hoje, quem sabe outro dia. Mas forte. Mas rápido. Queria mais e melhor que ontem. Carne viva irradiada de eletricidade humana. Carne. E ela queria mais. E tudo então estaria bom. Porque a vida é boa. Porque tudo é bom. E quem estava ali e socava cada vez com mais força e mais vontade de potência? Importava? Não. A vida é boa. Tinha alegria. E pra sempre teria. Estava na metade de um curso superior de qualidade. Havia um irmão de dez anos que era inteligente e fazia seus deveres de casa devidamente. E um louco apaixonado até as entranhas no outro lado do país a esperando. Dormindo, talvez. E ainda a amando como nunca amaria qualquer outra coisa viva criada por Deus.

(Poeta Bastardo)



Categoria: Prosa |
| Postado em: 29.03.12

Walter: Lábio e Jasmim

Os vizinhos escutavam o novo sucesso do funk nacional que lançara na semana anterior. Na próxima semana haveria mais um sucesso do funk nacional. No quarto ao lado esquerdo, o vizinho levara mais uma garota da vida pra brincar com ele naquele sábado anêmico. Talvez tivesse conhecido a moça no “Bar Esquina do Chop”, que ficava ali perto. Quem sabe numa esquina. Walter não tinha nada contra. Mas quase não ter dormido devido aos sons úmidos de fornicação inspirada durante a madrugada deixava nosso herói no mínimo desconfortável. Pra não dizer muito puto da vida. E a música. Sim, a música coroava o início de um fim de semana que prometia nada além do que o normal. Acendeu um cigarro.

Walter residia em um conjunto conjugado na zona sul da cidade. Reza a lenda que morava anteriormente em uma república com mais duas pessoas. Coisas que não jazem nos registros. O conjunto de casinhas vistas por fora lembrava uma locomotiva com cada porta representando as janelas da locomotiva. Anteriormente pintados de vermelho, agora possuíam um bege envergonhado, mas nem tão simpático. Uma janela e uma porta. Frente à locomotiva, vivia um pequeno jardim. Feito pela Dona Izaltina, dona do conjunto, talvez pra dar um leve ar de jasmim e cortesia àqueles que visitavam o conjunto pensando em alugar alguma cômodo.

Certos moradores possuíam extensos carrões populares, o que fazia a passagem das pessoas pela área um tanto incômoda. Walter já se acostumara. Acostumara-se com tantas CPI’s sobre cuecas cheias de dinheiro, passagens de avião, nepotismo, esquartejamentos na capa dos jornais (que, aliás, nem vinham mais na capa). Ora, porra, pensava Walter, por que não se acostumar com um simples incômodo de se espremer entre algumas portas de carruagens quando chegava a sua humilde residência? Coisa simples.

Dona Izaltina mandara construir uma cobertura no conjunto, que cobria com misteriosa sombra o local onde descansavam os carros. “Foi caríssimo!”, dizia a velha. Parecia se inflar de prazer quando comentava a seus inquilinos as pequenas fortunas que abria mão para acentuar o conforto de todos. Por algum motivo, esquecia-se de comentar sobre as goteiras, o portão eletrônico sempre muito teimoso, a água que vez ou outra gostava de se esconder, e o aluguel que a cada semestre parecia empanturrar-se de fermento pra bolo de laranja. Ela não gostava de comentar.

Velha. Era assim que Walter a chamava. No início, Izaltina parecia receber a alcunha variando entre o sentimento de ofensa e o de piada sem graça. Depois, começou a duvidar da sanidade do homem que lhe dirigia a palavra. Acostumou-se também. Todos se acostumam a algum inferno pessoal. “Aqui o dinheiro do aluguel, velha.”, dizia Walter no terceiro dia de cada mês. A velha esquecia-se de reclamar da (talvez), pequena ofensa, e engolia toda réplica junto com o cheiro dos animais recém retirados do caixa eletrônico. Abria um sorriso farto, como uma bruxa abrindo a porta para Joãozinho e Maria, e recebia o valor do aluguel sem nunca, é claro, conferir a quantia, passando os papeizinhos de Deus, um a um, pelos seus dedos gordos de McLanche. A vida nunca fora tão boa. Deus seja louvado.

E Walter acordou nesse dia às nove e vinte três da manhã. Bem mais tarde do que era acostumado. Mas alguns gritos e barulhos de cama e plástico o haviam roubado consideráveis quilos de sono pela noite. Ainda tentou fugir daquele show sonoro ao vivo, colocando tapa ouvidos, mas fora inútil. Não eram gemidos. Eram berros. Em certo momento Walter cogitou que seu vizinho do quarto ao lado esquerdo havia contratado uma ovelha. Mas, ainda sem sorrir, Walter jogou sua piada pessoal em seu lixo pessoal. Pegou um livreto de palavras cruzadas e mergulhou num rio de letras e enigmas.

“Descoberta científica que rendeu a Albert Einstein o Prêmio Nobel de Física”, Horizontal. Efeito Fotoelétrico. “Personagem da Mitologia Grega que enxergava o mundo em preto e branco”, Horizontal. Pandora. “Mesmo que automutilação”. Autoflagelo. “Caio Fernando Abreu”, Vertical. CFA. “O homem que desafiou o Diabo na literatura alemã”, Horizontal. Fausto. Ele era bom.

E nessa brincadeira de velho, Walter esqueceu os espasmos de prazer, dor, agonia ou sabe lá, que vinham do quarto ao lado. Levantou. Fez café preto na Amélia Púrpura, sua cafeteira. Bebeu o negro líquido em sua caneca do Calvin and Hobbes, (que por sinal era a única coisa que Walter gostava consideravelmente [mais que as pessoas], mas não tinha atribuído nenhum substantivo próprio). Esticou um pouco os bíceps e a batata de perna, com alguns exercícios (quatro décadas começavam a pesar). Acendeu um cigarro. Praticou esse ciclo algumas vezes durante a noite e depois se deitou. Parece, pensou Walter, que a ovelha já está sem lã.

As dez e vinte e um, nosso herói já estava com sua pasta pronta. Palavras cruzadas. Um exemplar de Direitos Iguais, Rituais Iguais, livro da série Discworld de um antigo autor britânico cujo nome não conseguia pronunciar direito. Terry Prexter. Ou seria Terry Prezzter? Ele também não lembrava como se redigia. Terry Pratchett. Gostava de como o autor satirizava outros livros de fantasia. Walter também dificilmente lembrava como se escrevia Dostoievski, Maiakovski ou Nietzsche. Os jovens de merda dessa merda de cidade é que têm que saber, refletia profundamente. Na pasta também pôs alguns analgésicos, um protetor solar, uma caneta preta e um cartão de telefone, da coleção com fotos de animais em extinção (quando comprava um com a imagem de um urso polar, revoltava-se por alguns momentos). E uma carteira de cigarros com oito unidades intactas e comportadas.

Começou a arrumar suas roupas. Calça jeans de cor cinza, quase negro; tênis preto, de alguma marca nacional não muito conhecida; um par meias brancas, que usava como quem usa papel toalha; uma camisa social azul escura, de mangas curtas (foi presente de algum parente; não gostava do aspecto, mas vestia muito bem); e seus óculos. Iria ao parque da cidade pela tarde, quando o sol se acalmasse e a tarde respirasse com melhor humor.

Preparou seu almoço. Feijão, sardinha, e purê de legumes. Todos enlatados. Esquentou um branco arroz do dia anterior e um último pedaço de fígado. Cada coisa em seu lugar ao prato. Colher e garfo. Em vinte minutos o prato estava tão limpo quanto à consciência de uma freira (e está aí uma analogia talvez errada por demais). Comeu como sempre comia. Como no último dia de um condenado. Calmo e sereno. Saboreava cada cor, forma e textura do alimento. Ininterrupto, ao não ser nos pequenos momentos que observava o garfo e suas macromoléculas. Sentiu-se bem. Lavou a louça. Bebeu dois copos de suco maracujá. Industrial, lembrava-se. Raramente bebia refrigerante. Abriu a pequena janela da cozinha e sentou-se em seu velho tamborete. Escorou-se um pouco na mesa, com um pano de prato e os talheres que lavara, e suspirou. Observou o jardim frente a sua janela. “Jasmim”, ele detectou.

“Mesmo sem permissão, esse aroma invade minha cozinha.”

“É viva. Essa planta cheia de vida, não sei por que me dá um presente que nunca pedi. E o cheiro me embriaga. Acho que sou um bendito mal agradecido.” Era a primeira vez que Walter pensava nessa besteira.

Acendeu um cigarro.

Sorrisos. Bolas coloridas. Algodão doce. Flashes. Bicicletas. Beijos. Pessoas.

O parque estava consideravelmente cheio, mas ainda havia alguns bancos vagos. Talvez não tão limpos quanto o que Walter gostaria, mas nada que um paninho não resolvesse. O sol se acalmara e o clima estava ameno. Tirando a pobreza daquelas relações sociais que se misturavam e se perdiam entre os bancos e a mesas do parque, aquele momento marcava uma boa tarde para nosso herói. Fingiria total silêncio e cegueira a qualquer coisa que pudesse perturba-lo naqueles momentos de leitura que planejara.

Assim como todos os fins de semanas.

Esqueceria as cadeiras quebradas do Ministério Público; cotações a corrigir; a cadeira vazia de seu chefe; e o piadista. Viveria um pouco de seu mundo ali. Sentado e eternizado numa imagem de introspecção tão simples e elementar como o balançar da folhagem nos dias de garoa.

E a vida passou por Walter feito uma brisa fria e lenta dos países do norte. Muitas crianças caíram de suas bicicletas e choraram um machucado no joelho. Vários casais apaixonados trocaram brigas nos banquinhos e fluidos corporais no banheiro. Vários jovens jogaram o bom e velho e inútil futebol nacional. Pássaros construíram seus ninhos. Cãezinhos com suas donas observaram o absurdo da existência sem nunca deixarem de farejar o que encontravam.

A vida e seus ângulos.

E Walter e seus livros passaram por tudo isso como uma folha parada no asfalto. E quando parou, suspirou e espreguiçou-se um pouco. Vista cansada e músculos um pouco doloridos pelo grande tempo na mesma posição. Leve dor de cabeça o faria levantar e comprar uma garrafa d’água. Assim ocorreu.
Foi a uma pequena barraca de conveniências e pediu a água:

“Vocês têm garrafas d’água? Pequenas mesmo.”

“O senhor quer água? –, respondeu um velho caduco.”

“Sim, eu queria… Por isso perguntei… – respondeu Walter um pouco sem jeito, mas sempre convicto.”

“Quer mesmo água? Por quê? – O caduco questionou.”

“Isso aqui se chama “Barraca da Conveniência”. No momento, uma garrafa pequena d’água me seria consideravelmente conveniente. – , Retrucou Walter, já armado de verbos e advérbios de modo.”

“Não precisa se estressar… – riu o velho caduco já entregando a garrafa. – só estava tentando fazer piada.”

“A vida já é muito cômica. Não preciso de mais piadas. Obrigado. – disse nosso herói com um tom mais sereno e levemente melancólico (como se não estivesse falando daquela situação). Pagou e saiu de volta até seu banco.”

Para sua raiva silenciosa, o banco já continha um casal que tentava encontrar alguma coisa na garganta um do outro utilizando a língua e apertos com voracidade. Walter parou no meio do caminho, enfiou um analgésico na boca e bebeu um pouco de água. Um gole quase eterno, como se as moléculas de água trocassem boas vindas e elogios com suas células, enquanto desciam em seu tubo digestório. Começa na boca, Pensaria Walter.

E dando um giro de trezentos e sessenta graus, foi observando os fatos ao seu redor. Tanta gente inundada de tanta vida que pulsava em todas as impensáveis direções. Trabalhadores; vagabundos; donos de futuras empresas de lanches; mães solteiras; gente que não pensava; gente que não existia; gente que assistia TV. Um mosaico policromático da existência falha do novo mundo.

Mas espere, parece que ali tem um pequeno banco, pensou Walter. E por incrível que pareça, lá na frente, próximo à pequena piscina infantil e a um jardim moribundo, havia um banco vago, mesmo com a densidade demográfica do parque, nesse horário, beirar o colapso. E Walter sentou ali, depois de uma trajetória minuciosa e esperta contra qualquer outro infeliz que pudesse lhe roubar aquele assento. Coisa boba.

Os minutos caíram aos poucos e nosso herói reparou que na outra ponta do banco sentara-se uma moça. Talvez já estivesse ali há alguns momentos, mas só agora percebera. Madeixas quase lisas e castanhas caídas nos ombros pardos. Baixa estatura e a pele do rosto, delicado e despretensioso, pouco mais clara que a do resto do corpo. Magra, caindo como uma luva celestial em seu vestido florido e sua aura cor de natureza.

Walter forçou seu raciocínio a conceber uma fórmula algébrica que declarasse aquela figura régia só mais uma hippie romântica que participava de discussões na internet sobre Renoir e fumava uma certa erva ao som de Los Hermanos e Rolling Stones.

Ele forçou bastante.

Por que não por aquela moça em seu devido lugar em sua mente? No vazio. Assim como tantas outras mulheres que passavam por Walter como pombos na praça. Por que não?

Talvez fosse o calor, o excesso de analgésicos ou a má procedência da água que bebera. Talvez algum fator externo ou patogênico o tivesse feito quebrar seu momento de leitura e em vez de ignorar completamente a existência da moça quase ao seu lado, o fez perder alguns segundos a observar como ela baforava formas incertas de fumaça no vazio e passava sobriamente as páginas de um bloquinho verde de anotações. Talvez.

“Oi! Tudo bem? -, a moça disse com ar simpático ao perceber que o homem a observava.”

Walter recebeu a frase como quem é acordado de um sonho surreal da mente de Neil Gaiman.

Ele não precisava ser educado. Sabia disso. Tinha idade pra ser pai dela. Não a conhecia e não tinha nenhuma espécie vã de interesse naquela criatura. Ao menos pensava que não. Acreditava nisso como um favelado acredita no santo evangelho (e nesse segundo ele queria acreditar muito nessa generalização). Alguns dizem que a velocidade do pensamento supera a da luz. Que nesse ritmo imensurável os anjos da morte seguram as almas invisíveis que se desprendem e caem da frágil vida. E foi nesse intervalo infinito que Walter estagnou no tempo e pensou no que ia falar àquela pessoa comum. Um pensar grande que mal cabia na tela do seu pensamento. Como antes da morte:

“Estou bem -, saíram calmas as palavras de sua boca, aliviadas como se tivesse quitado uma monstruosa antiga dívida.”

“Quer um cigarro? Parece que o seu já acabou – Disse suave a menina depois de um riso discreto.”

“Aceito, sim.”

Agora o hímen havia sido rompido, podia falar. Talvez agora sentisse prazer. Recebeu um Dunhill Carlton creme da mão da moça. Ele receberia com mais calor silencioso seu amigo Hilton ou um bom e velho Marlboro, mas naquele momento a marca do veneno que provavelmente lhe daria um câncer mais tarde não parecia importar muito.

Mãos de Pollyana, dos livros. Ela reparou que meu cigarro acabou, pensou Walter. Um gosto velho de uma antiga juventude invadiu seu paladar. Lembrou-se de capítulos passados. Que não valiam a pena serem lembrados. Mas lembrou.

A vida e suas verdades.

“Você sempre tá aqui, né? Lê bastante. Isso é legal, meus amigos não são muito disso…”

“É difícil alguém da sua idade ter o hábito da leitura hoje em dia. Não me surpreendo mais em ver garotões trocarem livros por horas na internet ou drogas.”

“Nossa! Você é bem durão nas opiniões, hein? Ei, mas eu não sou tão nova quanto pareço não, viu? Já tenho vinte quatro.”

Riu a moça das mãos de Pollyana, com a voz e um jeito específico de falar que fazia jus ao rótulo de menina. E também fazia florir o estômago enferrujado de amargura de Walter. Ela não o chamava de senhor. Nosso herói gostava disso. Como também gostava da altura de sua voz. Da voz dela. E de alguma forma, o contraste daquele vestido florido com o jardim morto atrás da menina o fazia borbulhar em epifanias literárias. O perfume daquela mulher fez Walter lembrar-se quando parou pra contemplar o jasmim do jardim de sua casa, mais cedo. A sensação foi semelhante. As duas coisas cheias de vida. Dando-lhe um presente que nunca pedira. Uma infestação de jasmim em suas narinas. Tão bom que quase o irritava. E aqueles lábios finos. Que quando falavam pareciam tecer a tinta da vida num quadro morto que era o mundo. O mosaico.

“Você parece mais nova. – Observou nosso herói.”

“Que bom né? As menininhas por aí querendo parecer mais velhas, sei lá, acho que pra conseguirem algum babaca pra ficar. Eu prefiro assim.” – Walter sentia-se com quinze anos. E quando ela falava ele procurava pensar que o mundo girava mais devagar. Corrompia mentalmente a órbita e a circunferência da Terra pra poder sentir mais aquelas palavras. Não, ele se sentia com treze anos.

“O que você escreve no seu caderno? Se for pessoal, não me importo se não quiser falar.” – Enrolou nosso herói, buscando algum assunto. Treze anos.

“Ah! Não, não, são só umas besteiras que eu escrevo. Sobre pessoas e lugares. Como um hobby, sabe? Um passatempo.”

“Poemas? Poderia ler algum?”

“Ah… Eu nem considero poemas, são só besteiras mesmo. Você nem vai entender porque nem tem nexo, eu só vou escrevendo o que vem na cabeça. – Disse aquela Pollyana envergonhada.”

“Tudo bem. Não sou muito de insistir. – Respondeu Walter sentindo um pouco de seu padrão normal de comportamento saindo de um buraco qualquer de sua mente.”

“Tá bom, então. – Esperou alguns segundos com uma expressão fugidia – Você já leu Borges? Jorge Luís Borges? Poeta argentino.”

Ele sentiu que estava na sua área. Literatura. Viu que ela também tinha certo conhecimento. Quantas outras meninas de vinte quatro anos com o padrão estético de beleza dela conheciam Jorge Luís Borges? Llosa? Garcia Márquez? Coisa difícil. Coisa comum. Aliás, ele odiava Borges.

“Sim, já. Mas não sou muito fã dele. Mas é claro que sempre é possível aproveitar alguns escritos.” – Disse Walter esperando uma reação de defesa. Ainda era uma conversa neutra e sem pretensões.

“É, às vezes encontro uns poemas que são uma porcaria, mas gosto muito dele. Me serve de inspiração…” – Respondeu normalmente a garota.

Walter e a moça do vestido florido ouviram um som estridente e irritante no ar. Era o celular dela. Forceful Behavior. Faixa de um disco do Sepultura que fazia homenagem ao livro Laranja Mecânica, de Anthony Burges. Borges. Burges. Fazia muito sentido. Mas Walter não sabia disso. Pelo menos não era Rolling Stones ou David Bowie. Houve certo alívio pela surpresa ali.

A moça atendeu. Era provavelmente seu namorado. Provavelmente. Na certa pediu para se encontrarem em alguma lanchonete ou sorveteria ou motel. Quem sabe. Intelectuais e mocinhas com ar de anjo também ficam de quatro.

Avisou, com certo humor, que tinha que sair; deu mais um cigarro a Walter e se preparou pra ir embora:

“A gente pode conversar mais se você começar a sentar desse lado do parque, agora.” – Disse ela com um sorriso de derrubar exércitos da terceira guerra e arrastar castas demoníacas para o inferno.

“Tudo bem.” – Falou Walter baixinho e organizado.

“A gente se vê.”

“Até.”

Ela deixou uma folha de papel verde no banco. Um de seus poemas. Walter reparou alguns momentos depois da saída da moça. Mas não o leu. O céu denotava iminente chuva com os contrastes furiosos de nuvens carregadas ao longe. Guardou o poema na pasta. Ele não sabia o nome dela. Esquecera-se de perguntar. Mais tarde saberia.

*

Vigilantes de órgãos públicos, balconistas, donas de casa frustradas, colegas de trabalho, colegas de ponto de ônibus, todos adoram debater arduamente sobre os acontecimentos regionais que explodem nos noticiários. Como se realmente entendessem dos fatos e dos homens. Como se todos fossem um pouco técnicos de futebol, presidentes de república, juízes de tribunal, e, um dos mais irritantes, comentaristas de programas sensacionalistas.

“Meu amigo, mas num pode. Num tem mais polícia na rua, cara. Os cara só querem saber de greve e de aumento de salário, aí dá isso.”

“Mas se o prefeito fizesse alguma coisa. Ele tem apoio do presidente, uai. Cadê as verba pra segurança? Eles desvia. Já num tem educação. Meu primo quase morre na fila do hospital central ano passado. Num tem posto de saúde e hospital decente. Se tivesse fiscalização na movimentação do dinheiro público. Mas os fiscal também desvia, porra. E se a gente não pagar imposto se fode mais ainda. Tem que ficar ligado nessas coisa.”

“Eu ainda acho que isso aí ainda é falta de Jesus no coração. O povo não vai mais na igreja. Todo mundo só gosta de orar na hora que o bicho pega. Antes disso é festa é putaria antes do casamento é bebida e droga. Nossos filhos aí todos se corrompendo na carne. Poderia ter sido com um filho seu, ou meu, quem vai saber? Mas as pessoa num leem mais a palavra. É por isso que eu sempre digo: gente, vamos pregar a palavra nas escolas, na rua, se der até nas casa mesmo. Pra Jesus não tem tempo ruim. A gente tem que converter mais fiéis. Esses católicos aí que só querem saber de bandinha de rock, de luau na praia, onde todo mundo pode fazer o que quiser e usar roupa que quiser. Assim não dá…”

“Mas minha senhora, isso aí é violência, é falta de segurança, tem que tê é porrada em cima dos vagabundo.”

“E tu acha que isso aí é o que? Tá escrito, meu filho, é o apocalipse que tá chegando. Os sinais tão aí pra todo mundo vê. A terra tá esquentando, essas guerras aí, essas morte grotesca aí. Isso é influencia do Diabo.”

“Mas vocês tem que ver que…. ”

Mera conversa inútil. Mas movia o mundo. Entre uma papelada e outra todos na sala se inseriam nas conversas do dia no ministério. Pura besteira, pensava Walter. Ninguém ali entendia sobre nada daquilo. Estavam longe demais da realidade. Ou quem sabe perto demais. Walter estava em outra estação.

O nome dela era Luciana Ottoni. Saiu na quinta página do Jornal do Povo de um dia qualquer. Encontrada em um córrego de uma periferia divida em alguns pedaços mal cortados. A perícia conseguiu especificar vários produtos e materiais utilizados e fases definidas do processo. Tentaram queimar, mas resolveram esquartejar no intuito de facilitar o transporte em sacolas de lixo. Nos restos do corpo foram encontrados resquícios de querosene, maionese e esperma. Parte da cabeça fora queimada.

Não havia cabelo nem orelhas. Como cera derretida. Os mamilos foram cortados com tesoura de costura e o canal vaginal estava estendido em sessenta e seis centímetros útero adentro. A perícia presumiu que utilizaram uma lanterna ou um tubo de xampu. Um dos braços não foi encontrado. Trabalho mal feito. Mas muito boa a equipe da perícia. Pessoal simpático. O jornal censurou as imagens, mas estavam disponíveis as fotos na integra internet, pra felicidade de todos.

Walter não quis olhar, mas ainda viu algumas enquanto passava pelos computadores dos colegas de trabalho. Poderia não ter suspeitado de nada, mas reconheceria aqueles lábios em qualquer jornal velho do país. O mesmo estilo de vestido. E o sorriso. E o cabelo.

Nesse dia ele saiu do trabalho, comprou um Carlton creme, foi pra casa a pé baforando almas cinzentas no ar. Pensou em coisas que talvez nem devessem ser postas em papel. Pensou no ódio, no mundo, na vida, no cheiro de jasmim, no gosto do cigarro. Pensou em nada.

A vida e seus absurdos.

Chegou em casa. Como um condenado chega a sua cela. Bebeu café. Acendeu mais um maldito cigarro de creme que tinha um gosto terrível. Pegou uma certa folha de papel verde. Leu por alguns instantes. Guardou numa caixa de sapatos e colocou-a na gaveta mais velha do guarda-roupa. Sem sorriso.

Por um instante seu rosto pareceu mudar, e acentuar o tom melancólico. Talvez uma lágrima, quem sabe? Diante de tanto ódio tanta fúria tantos dias malditos. Ele merecia uma lágrima. Merecia algo fora dos seus dias invisíveis. Podia chorar. Era uma desconhecida, sim, mas merecia seu pesar. Uma desconhecida que despertara nele algo além do ódio bruto de cada dia. Ele podia chorar, ninguém veria a não ser sua própria consciência. Ele deveria chorar.

Converteu suas quase lágrimas no mais introspectivo e obtuso tom de indiferença ao mundo, à morte e à vida. Jogou fora sua carteira de cigarros. Abriu um Marlboro.

Fumou. Banhou-se. Trocou suas roupas. Ao som do mais novo sucesso do funk nacional. Deitou. Lento. E dormiu pensando em acordar tarde, porque amanha seria sábado e não haveria nada pra fazer.

(Poeta Bastardo)



Categoria: Prosa |
| Postado em: 15.01.12

Walter: Sem Sorriso

Arrancaram o banco do ponto de ônibus. O chão banhado de sol. Pessoas. Muitas pessoas. Nos carros do ano e a pé também. Cabecinhas na calçada pareciam ter sido postas como bonequinhos. Parados. Esperavam a morte e o ônibus. Uma segunda-feira que culminava o sentimento de preguiça e má vontade. O bom e entediante trabalho de cada dia. Tão humanista quanto à escravidão. O nome trabalho vem do grego tripalium, nome dado a um instrumento medieval de tortura. Walter sabia disso. Lera muito quando mais jovem. Agora fazia palavras cruzadas e lia o Jornal do Povo.

Às vezes se arriscava em Hemingway, Paul Celan e poesia nacional. Fazer cruzadas não representava velha idade. Walter não era idoso. Estava no auge opaco de seus quarenta e um anos. Servidor público. Trabalhava no Ministério Público do Estado há longos e não divertidos quatorze anos. E hoje iria atrasar-se. As ondas de UVA e UVI não só fritavam o asfalto, mas também chupavam um pouco de sua cabeça e de outros que esperavam no ponto de ônibus. Em pé. Sim. Aquelas cabeças que pareciam bonequinhos de um deus criança.

Era um homem magro. Cabelos castanhos com um princípio de calvície e pontinhos brancos. Vestia um terno cinza velho. Óculos tão magros quanto ele. Sapatos de couro falsificado negros como seus olhos. Uma pasta também de couro, mas original. Orgulhava-se de sua pasta nova onde colocava suas palavras cruzadas, um bloquinho de anotações, uma caneta preta, comprimidos pra dor de cabeça, a receita de um remédio para stress que o doutor Washington Luís receitou, mas não comprara; e um livro de bolso com poemas escolhidos de Carlos Marighella. Ele apreciava. Fazia-o relaxar.

Era um homem culto que não sentia necessidade de expor isso a ninguém. Não era um pensador. Mas odiava os intelectuais de esquerda que defendiam a legalização da maconha e usavam pingentes do Che. Um homem reservado. Silencioso. Observador e introvertido. Desejando a morte do motorista do ônibus que não chegava.

Corpos semi vivos amontoados numa esquina qualquer olhando periodicamente o horário em seus celulares de ultima geração. Servidores, vendedores, cozinheiros, mas todo mundo hoje tem um celular de ultima geração. O pobre, pensava Walter, também tem direito de poder tirar fotos com os filhos na escada rolante, acessar a facebook e ter o privilegio de verificar o horário do trabalho numa tela de touchscreen.

Mas Walter usava seu bom e velho Arthur das Eras. Esse era o nome do seu relógio. Estranho? Não. Walter já lera sobre um velho que mantinha relações sexuais diariamente com um corpo congelado de um menino que havia assassinado. Então, ele poderia dar um nome ao seu querido relógio de bolso que levava consigo sempre que saía para trabalhar ou ler no parque da cidade sem ser taxado de excêntrico.

Treze e quarenta e três da tarde e o bom e velho caminhão de carga humana conformista ainda não dera nenhum sinal de vida burra. Faltavam dezessete minutos. Iria se atrasar. E o Sol. Sentia-se numa fornalha de Lúcifer. Os pés imploravam arrego. E mais: Calor humano. Não suportava. Um considerável número de pessoas de todas as cores, tamanhos, crenças e desejos diferentes unidas em seis metros quadrados era um ambiente não muito apreciável na concepção cinzenta de Walter.

Acendeu um cigarro. A senhora que parecia supervisora de algum colégio de ensino médio, que provavelmente não ensinava história da arte, pensou Walter, protegia sua cabeça do deus Hélios com um exemplar de Ponto da Moda, revista com artigos de temas que enchiam o estômago de Walter de vermes. Um rapaz com uma camisa de pré-vestibular, escrito “Rumo à Medicina” em suas costas, mascava chiclete e conversava com uma moça bonita ao seu lado, igualmente estúpida, sobre suas manobras de skate no centro de esportes da cidade e de como seus colegas de classe eram riquinhos e “show de bola”. Walter era um observador. E os vermes pareciam querer eclodir de seu intestino delgado como a massa de uma torta de macarrão transbordando da forma.

Nosso herói de cinquenta e cinco quilos e duzentos e trinta gramas analisava cada centímetro de humanidade e de simplicidade que observava no dia a dia. Combinava momentos de contemplação do vazio, apreciação das formas incertas e misteriosas das nuvens e ponderações despretensiosas a cerca do comportamento dos civis cujo era obrigado a conviver em seu cotidiano monocromático.

Colegas de trabalho. Transeuntes. Personagens das fábulas dos livros e das piadas políticas dos noticiários. Um reator de informação inata. Irritava-se com tanta coisa. Impelia-se à indiferença. Achava graça da ironia dos fatos e dos homens. Mas não sorria. Nunca. Era apenas um feixe de vida passando pela realidade feito o mais belo e invisível espectro de luz. Caminhava sobre a linha tênue, opaca e sem graça que é a existência.

Lá vinha ele da esquina suja da Rua Sete de Setembro. Seu som imponente e desconexo, como o rugido de um Kraken que acabara de ser libertado, conotando o cansaço e a ferrugem de suas engrenagens, feias como as do capital. O ônibus. Febril e lento. Parecia doente e tão cansado e acalorado como aqueles que o esperavam.

A reação de satisfação e a alegria vã tomaram forma de ondas sonoras, atravessaram os seis metros quadrados de carne humana e emergiram do quase silêncio na forma das mais nobres declarações pessoais: “porra, já tava na hora”, “olha a hora que o filha da puta passa”, “Ufa, ele chegou, em nome de Jeová!”; dentre outros poemas populares. Walter não pensou em mexer nem uma de suas cordas vocais ali equipadas com sua laringe. Sem palavra feia. Nenhuma molécula de endorfina a mais, nenhuma a menos. Talvez uma fina sensação de alívio escondida no canto direito de seu pulmão. Talvez. Subiu a carruagem. Sem sorriso.

Zé Ramalho parecia tão relevante enquanto ele notava o balançar do gado na carruagem. Amassavam-se em suor, banha e roupa nova. Ruminavam comentários vazios como capim, pensando em falar de reality shows, política regional e a situação precária de seus filhos na escola. Walter sentia-se numa lata de comida pra gato. E sabia que todos ali um dia seriam comidos. Por gatos maiores.

Limitava-se a lembrar dos relatórios que deixara pré-prontos na sala de trabalho pela manhã. Notas fiscais, placas patrimoniais, cadeiras e mesas de computador pra levar ao senhor Procurador de Justiça e ao chefe de Departamento de Informática. Eles não poderiam esperar mais. Suas bundas gritavam na expectativa de um assento mais seguro e confortável. Com sabor de produto novo e débito bancário. Tudo em favor da boa produção, do bom funcionamento do órgão e do bem da comunidade.

Walter procurava não se encostar muito no homem com a farda da distribuidora de açúcar do seu lado, com a camisa não tão bem apresentavelmente confiável e régia quanto prezava. Faltava pouco. Mais dez minutos fora os quarenta e cinco já esperados dentro da carruagem, e já estaria no abatedouro.

Saiu do ônibus como uma criança que irrompe úmida e vermelha da vagina de sua mãe. Nascer pra mais um dia e morrer no deitar do crepúsculo. E a alegria dos apresentadores de programas de palco não era tão azul quanto às janelas recém polidas do pomposo prédio do Ministério. Berço da justiça. Ou da sujeira. E ali dentro apreciou o frio das centrais de ar e a tela do computador onde registrou seu ponto já calculando seu prejuízo e escolhendo qual livro iria abrir mão de comprar esse mês. Capitães de Areia . Um novembro ingrato e maligno como o bebê de Rosemary.

Um pio discreto anunciou a porta do elevador se abrindo, feito a boca de uma baleia azul esperando o erro das camadas de crio. E lá se acomodaram em pé, Walter, a moça simpática da Xerox, o zelador, também não muito bem humorado, e seus esfregões, dentre outros seres aquáticos do oceano moderno.

A boca se fechou e irromperam no ar as notas de Imagine . “No máximo treze pessoas”, a placa indicava, ao lado de sua irmã, que afirmava uma relação direta de lógica entre o ato de expressar júbilo escancarando um sorriso e de uma medida de segurança interna que registra em vídeo o momento em que você coça o ouvido, retira bactérias do nariz, fala sozinho ou surrupia aquele Sonho da Valsa que estava de bobeira na prateleira. Walter não entendia esse tipo de coisa.

E depois de alguns “boa tarde”, “bom trabalho”, “oi, como vai?” e “legal essa música dos Beatles”, Walter sobreviveu corajoso àquele suco gástrico público e se direcionou à sala vinte e três; sem antes é claro tomar um copinho de café preto, como aquele que o fez, e ter desejado não existir a placa de “É proibido fumar”.

“Boa noite, senhor Walter. Estava roçando com alguma colegial pra chegar essa hora?” – Proferiu Gilvan, o secretário da seção de material. Sim. Ele era o piadista da sala. Walter percebeu que era uma piada, mas não sorriu. A vida não tinha graça.

“Não, senhor – Afirmou com segurança e tom de voz calculado.”

“Tô te zuando, cabra. Todo mundo tem direito de fornicar, num é? Mas cuidado com os Homem.” – Disse o piadista, sorrindo. Não. Definitivamente não tinha graça. Walter ignorou e caminhou até sua mesa. Tripalium. Ele sentiu o açoite. Começou a organizar os papéis e a jogar fora os papeizinhos com reclamações dos chefes de Departamento cujas bundas pálidas ainda reclamavam da má simetria das cadeiras. Tripalium. Suas costas doíam.

O restante da sala com estagiários magrelos, outros servidores e uma cadeira vazia do chefe continuaram a tarde debatendo de forma entusiasta a forma como os homens atravessam a crise de meia idade, as notícias sobre e pedofilia nos bairros pobres e nas igrejas e vez ou outra se lembravam de ressaltar a piada feita com Walter quando este chegou ao recinto. Não havia graça. Nem na sala. Nem em qualquer outro lugar que Walter pudesse pensar.

Continuou organizando a papelada que pousavam na sua mesa como a comida de um condenado, e digitando memorandos para departamentos que nem sabia que existia. Calado. Ainda sem sorrir. E pensando em qual nome ele daria à sua pasta nova.

(Poeta Bastardo)



Categoria: Prosa |
| Postado em: 31.12.11
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